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Grafiteiros participam de encontro em Brasília e cobram regulamentação de sua arte.
Publicado em Aspectos legais, Imprensa
O pixo e a crítica de arte
É inevitável fugir da eterna polêmica que cerca a pichação, e “Pixo” consegue entrar nela com isenção. “É vandalismo, não há dúvida. Está na lei, é crime e ponto final. Mas tem outras motivações, traz outros questionamentos”, analisa Wainer. “A gente tentou abrir essa discussão, mas é meio sem fim. Entrevistamos várias pessoas, e o filme só deu liga quando tiramos isso. Não somos responsáveis por dizer se é arte ou não. Não estudei direito nem artes plásticas, deixo essa bucha na mão de especialistas. E o Brasil está cheio deles.”
Fonte: ‘Pixo’ revela o universo da pichação e propõe novo olhar sobre São Paulo.
Todo mundo quer saber se pixo é arte ou vandalismo. Essa discussão obviamente é infrutífera como bem pontuou Wainer, não sem antes, transferir ironicamente aos “especialistas” ao debate. Afinal, o Brasil está repleto de especialistas que… Não reconhecem arte quando ela está a um palmo de seus narizes. E se a observam, calam-se. Quando não se calam, tentam domesticá-la. Se não a domesticam, invalidam-na.
O que me faz pensar, ainda que sob o ponto de vista de quem exerce o ofício da crítica:
Para que existem os especialistas (em arte) e… O pixo realmente precisa deles?
A resposta é não por motivo torpe: os críticos estão cegos face a expressão artística mais fascinante desde a Semana de Arte Moderna. Ainda assim, a curiosa e anacrônica figura do crítico de arte poderá escolher entre sua extinção ou curta sobrevida, o que pode ser interessante. Nuca se sabe o que se faz com um minuto a mais, talvez o placar se inverta.
Para isso é preciso escolher entre persistir no favorecimento do grafite, em detrimento do pixo ou simplesmente… Concordar em ouvir o que os artistas estão falando! Se eles tiverem a bondade de fazê-lo pois, na a realidade, o artista pixador não precisa de especialistas que lhe apontem trajetórias. Pelo contrário, dependendo do especialista, esse papel se inverte. O crítico é obsoleto.
“Essa molecada recebe tudo de ruim que a sociedade pode oferecer a eles. Hospital ruim,educação ruim, lugares ruins para viver. São invisíveis para a sociedade. Eu acho que a pichação é meio que um atalho que eles encontraram para superar isso. ‘Eu prefiro ser odiado do que ser ignorado’, entende? A pior sensação que existe é você ser ignorado. Pichando, eles se transformam em alguém. É a mesma pegada de um jornalista que assina sua matéria no jornal. Você é o que você faz, e você tem que ser alguém.”
Os pixadores se sentem ignorados. E para isso assumem o controle da Ágora, a rua. Os artistas e nem a sociedade não precisam mais de um especialista para dizer o que é arte ou para legitimar códigos, linguagens.
Alguns críticos já acordaram para essa realidade. Não sem tempo. Pixadores não constituem um gueto. Minoria são aqueles que ainda vão ao museu para ver arte, leia-se a tentativa (que ainda não classificaria como desesperada, posto que preciso visitar a cena do crime) do Masp de literalmente engolir a arte de rua.
Nesse sentido, espero que a crítica de arte atue não como instrumento desse processo. Aliás, o que desejo é que o crítico de arte entenda que, se o pixo está ganhando visibilidade, é às próprias custas e não por obra de uma olhar complacente de especialistas.
Olha só o que disse o Estadão falar sobre o Pixo, o documentário:
São três fatores que indicam o novo olhar sobre os rabiscos que, vale ressaltar, pela legislação são enquadrados como crime – todos já vivenciados pelos grafiteiros. O primeiro é o interesse de outros países pela pichação. A Fundação Cartier, de Paris, e o próprio governo francês já convidaram pichadores paulistanos para expor seu trabalho no circuito internacional. "Um outro termômetro", avalia Rui Amaral, artista plástico, um dos pioneiros nas técnicas do grafite e especialista em arte de rua, "é que hoje pensar em grandes exposições de arte urbana não descarta a pichação". E uma terceira novidade está na boca de quem picha. "Desde 1985, quando comecei a pichar, nunca tinha recebido elogio. Agora, já começo a ouvir", diz Zé Lixomania, que morou na Europa e tem a fama de ter conseguido espalhar sua marca por todas regiões de São Paulo.
Fonte: Pichação, como o grafite, busca status de arte urbana
Alguma dúvida?
Deus

IMG_0938, upload feito originalmente por daniel bernardinelli | neon marginal.
Publicado em Imagens
Edifício São Vito

610, upload feito originalmente por augusto gomes.
Essa foi a imagem que escolhi para ilustrar o header (cabeçalho) do blogue esse mês. Agradeço enormemente ao Augusto Gomes que publicou esse lindo trabalho permitindo seu uso não comercial.
Web é assim. Maravilha.
Fora da sala de aula
Hora de começar nova jornada: pesquisar o pixo como manifestação artística. Eis algumas considerações iniciais.
A idéia sempre foi adotar o pixo como tema do mestrado. Contudo, a motivação foi esfriando. A vida passando. Dediquei meu tempo a projetos “menos ambiciosos” enquanto repensava a vida e o diploma. Não queria, sob hipótese alguma, ver a vida passar dentro de um escritório, uma sala de aula ou laboratório.
Ainda assim, a vontade de retornar à vida de pesquisara se desenvolveu ao longo de 2009 com os debates acerca da Bienal do vazio e o caso envolvendo Caroline Sustos. Porém, ainda que eu soubesse que poderia agregar conteúdo ao debate, precisei dar um tempo. A fonte de inspiração para o início do projeto pixoéisso! foi a palestra de Regina Casé no TEDxSP e o trabalho de João Weiner, apresentado recentemente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
A escolha do título da pesquisa, inspirado na obra de Iaco, foi a cereja do bolo nesse processo. Explico. Uma das grandes dificuldade na vida de um pesquisador é escolher e focar o olhar sobre determinado aspecto de um tema. Eu também sofri com isso. Mas, uma vez que o tema e o enfoque estavam bem claros, o título da pesquisa surgiu espontaneamente, como um presente.
Mas essa espontaneidade teve um efeito profundo.
Com esse recorte em mãos, poderia entrar par a academia mas… Acabei por questionar o próprio modelo de mestrado malgrado a minha enorme motivação em ser pesquisadora. Percebi que meu propósito era produzir conhecimento, promordialmente. Por isso a importância de um blogue. Pesquisar e blogar soluciona uma das maiores limitações de um mestrado (dentro e fora da academia), o isolamento do pesquisador. A partir desse formato, abro o projeto para quem possa contribuir para o debate e não somente para meu orientador.
Mas o formato de blogue vai além. Ao dedicir fazer mestrado fora da sala de aula e dentro da rede mundial de computadores, insiro a pesquisa no espaço de articulação e debate de meu tema, o Pixo. Isso, acima de tudo, permite que a leitura da pesquisa seja como o caminhar de uma viagem, um processo que se desnuda de acordo com o olhar do leitor. Um texto cujo desenvolvimento pode ser tão interessante quanto o produto final de um mestrado convencional.
A motivação é contribuir com um olhar de arquiteto. Não que esse olhar tenha qualquer coisa de original ou especial, justamente pelo contrário. O objetivo é mostrar à academia que estamos de olhos atados face à manifestação mais fresca, marcante e original desde a Semana de Arte Moderna ou Tropicalismo. Posicionamento esse que deve ser rapidamente repensado pelo profissional reflete o espaço urbano.
Pretendo portanto, ao longo de 24 meses, falar sobre aquilo que todos nós já sabemos mas ainda está sendo sistematizado pela universidade:
1.Conceituar o Pixo como arte contemporânea tendo como estudo de caso a cena paulistana.
2.Caracterizar o Pixo em suas particularidades através da aproximação de movimentos artísticos como a Semana de Arte Moderna e as pesquisas de Lygia Clark e Hélio Oiticica.
3.Conhecer alguns de seus personagens, cultural, social e espacialcialmente.
4.Entender os processos e mecanismos de marginalização que permeiam o consumo do pixo.
Ou seja, estou fora da universidade mas a pesquisa é séria.
Para tanto, terei uma método de trabalho híbrido que conciliará jornadas dentro e fora da rede. E a participação de quem gosta, divulga e faz pixo será primordial! Falarei com artistas, realizadores, críticos, traseuntes, donos de galeria, cineastas. Enfim, com todos aqueles que consomem e pensam o Pixo voluntaria ou involuntariamente. Também pesquisarei, além dos livros de referência que são esperados numa pesquisa desse porte, o material vinculado em blogues e jornais online. Off course.
E contarei tudinho aqui para vocês!
(…)
Agora, reproduzo os textos encontrados nos sites de Regina Casé e J. Weiner que inspiram esse blogue nesse início de jornada.
Chega de ingenuidade, por Regina Casé.
Nós trabalhamos na maior rede de televisão do Brasil, onde um programa pode ser visto por 100 milhões de pessoas.Em todas as séries que produzimos, viajamos por lugares que ninguém procurou e mostrávamos pessoas também invisíveis até então.
Logo percebemos que a TV já não espelhava o que realmente era popular. Uma enorme indústria independente produzia CDs, DVDs, SHOWS , com as músicas de maior sucesso do país, totalmente a revelia da mídia oficial. Começamos então a desenvolver um projeto chamado Central da Periferia para mapear esse fenômeno tão impressionante. Ele revelou a potência do Funk Carioca, das festas de aparelhagem em Belém e do Forró eletrônico fenômeno no norte e nordeste.
No ano seguinte partimos para a periferia de grandes cidades mundo afora suspeitando que isso não acontecia apenas no Brasil, e ficamos ainda mais impactados com a força da nova produção cultural planetária como o Kuduro de Angola, o Coupée de Decallé de Paris, da Costa do Marfim e Sonideros (festas de música eletrônica) Mexicanos.
O mais estarrecedor é que estas não são latências tendências tímidas e sim enormes indústrias com importância econômica e cultural gigantescas, mesmo assim, são totalmente negligenciadas, ignoradas, e estigmatizadas tanto pela economia e mídia oficiais, quanto pelas instâncias que legitimam o que é cultura e o que é popular.
As políticas culturais, mesmo as mais bem intencionadas quando não ignoram, sentem até repugnância e lutam para que esses poderosos agentes culturais abandonem estas práticas tão inovadoras (que absorvem uma velocidade estonteante as mais novas tecnologias) e o que é pior tentam impor sua verdade cultural, oferecendo sempre produtos com uma visão ingênua e preconceituosa do que seria a Tradição ou Qualidade.
Thank You!!!
A escrita dos invisíveis, por J. Weiner.
Quando um pixador escala um prédio e escreve lá no alto o nome de seu grupo, ele quer que todo mundo veja. Em São Paulo quase ninguém gosta do que eles pixam e é exatamente isso o que eles querem.
A pixação é uma agressão, um crime, mas é também uma forma de expressão das mais sofisticadas. São Paulo é feia, agressiva e oprime quem esta em baixo e é de lá que vêm a maioria dos pixadores. Escolas, hospitais, delegacias e outros serviços públicos são de qualidade duvidosa, falta opção pro moleque da quebrada, a vida é difícil bem na fase em que os hormônios da adolescência estão bombando.
Uma pixação na parede reflete tudo de ruim que a cidade tem pra oferecer. O egoísmo, a perversidade e a opressão da metrópole estão representadas no muro pixado. A arquitetura desordenada, as esquinas, as linhas retas verticais. A cidade serve como suporte, mídia e tela. As linhas retas verticais dos prédios são as linhas guias do caderno de caligrafia gigante em que a cidade se tranformou para os pixadores.
Quem cresceu sob a opressão de São Paulo sabe que na selva, só os fortes são considerados. Pra alguém que nasce onde eles nascem são poucas as opções que te fazem ganhar essa consideração.
Dá pra tentar pelo estudo, ralar pra conseguir um diploma, um emprego, tentar mudar de classe, mas sempre esbarrando no preconceito relacionado a sua origem. Tem também uns caminhos mais rápidos, mas não menos difíceis. Pode cantar, tocar ou jogar bola, mas de cada milhão que tenta só meia duzia consegue. Pra ter respeito você tem que inverter o quadro, dar a volta no sistema, ficar por cima de alguma maneira, e se isso já é foda pra quem tem alguma grana, imagina pra que ta lá embaixo.
A opção do crime esta sempre ali por perto, tentando, e provocando o adolescente que tenta se desenvolver em condições adversas. É
o mais fácil e rápido. Rápido pra ganhar e rápido pra perder.
A pixação é um meio termo. Apesar de ser uma agressão, não deixa de ser pacífica. O cara que pixa um muro, não bate e nem ameaça fisicamente ninguém. Ele está se expressando ilegalmente através de tinta e letras. Normalmente a sociedade responde aos pixadores de forma muito mais violenta que eles. Pixadores são agredidos, pintados e assassinados com alguma freqüência. Se não me engano, agressão e homicídio são crimes um pouco mais graves do que dano ao patrimônio. Quem é mais bandido, quem pixa ou quem agride e mata?
Na quebrada não tem opção de esporte. Enquanto tem onda pra pegar em Maresias, no centro tem os prédios pra escalar. A mesma adrenalina que move o surfista do Morumbi move o escalador do Grajaú. Cada um no seu castelo.
Pixação é uma escrita. Letra e tinta formando palavras que comunicam algo. O que a pixação diz vai além do que está escrito no muro. É um grito profundo dos invisíveis e excluídos da cidade de São Paulo que traz impregnado nos seus símbolos a miséria, a desigualdade e a opressão. Fazem cerca de 25 anos que esse grito vem sendo dado até hoje em São Paulo pouquíssimos tentaram ouvir.
Algumas instituições de arte brasileiras como a Bienal e a Faculdade de Belas Artes tiveram a chance de discutir a fundo a pixação quando foram atacadas por pixadores, mas ainda assim não o fizeram. Talvez agora essa situação mude.
Em julho deste ano a Fundação Cartier em Paris inaugurou uma mostra sobre arte de rua chamada “Né Dans la Rue”. O andar de baixo era uma grande retrospectiva do grafite, criado em NY nos anos 70 e que espalhou rapidamente o Wild Style pelo mundo. Na parte de cima, artistas contemporâneos criaram obras especialmente para a mostra.
Pra surpresa de todos, a grande novidade foi a pixação de São Paulo. Com suas letras esticadas, conhecidas como tag reto, o pixo encantou os europeus. Não só pela energia que o movimento carrega, mas também pela estética de suas letras e símbolos.
Entre os vários artistas convidados, o mais observado era o pixador Cripta Djan. Para quem passou a vida como um vândalo desviando de moradores revoltados, policias agressivos e ouvindo todo tipo de xingamento pelas ruas, foi uma grande mudança ser tratado como estrela em Paris.
Ao pixar a Fundação Cartier em Paris, Cripta seguiu a risca um dos princípios básicos do movimento. Ele fez com que o nome de sua gang fosse visto pelo maior numero de pessoas possível. Ele deixou claro que o que ele fazia ali não era pixação, e sim uma representação da rua em uma galeria.
Apesar da rejeição absoluta no Brasil, mais cedo ou mais tarde um movimento com a intensidade e a força da pixação de São Paulo ganharia o mundo.
Se havia alguém com moral e conceito suficiente pra levantar a bandeira da pixação, esse alguém é o Cripta Djan. Além de ter destruído a cidade, pixando topos de prédios, janelas e muros entre 1996 e 2002, é o criador dos DVDs “100 Comédia” e “Escrita Urbana”, que são as principais formas de registro em vídeo do movimento.
Por seu histórico, imaginei que os muros de Paris não sairiam incólume de sua passagem. Me enganei. No final da viagem, ao ser questionado se deixaria um pixo na cidade luz, Djan foi taxativo: “Não faz sentido pixar Paris. É uma cidade muito bonita, tudo aqui parece ter mais de trezentos anos. A pixação só existe em São Paulo porque lá ela tem um motivo, um sentido de existir. Aqui não seria a pixação, como não era a pixação na parede do museu. Aqui é apenas uma representação de um movimento que tem que ser mostrado. Não tenho que provar nada para ninguém, tudo que eu tinha provar já provei escalando prédio em São Paulo.”
Publicado em Diversos